segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

A ilusão do ano “novo”

Imagem de frankie's.


Quantas vezes já não ouvimos a famigerada frase de que ano quem vem será diferente, de que em janeiro começo a dieta, a reestruturação financeira, a atividade física? Quantas vezes já não falamos que no ano que vem tudo mudará, porque será uma nova vida? Muitas vezes. Sabe por quê?Apegamo-nos facilmente à esperança de algo que não está palpável. De algo que está sempre por perto e concomitantemente distante. O futuro.
Se no ano seguinte tudo pode ser maravilhosamente diferente em nossas vidas e tudo isso depende de nossa atitude e força de vontade, por que não começar hoje, agora? Por que esperar mais tantos dias para isso? Pelo simples motivo de que agora eu preciso de coragem. Coragem não para começar realmente, mas para quebrar uma regra que foi imposta, de que somente pode-se começar alguma mudança no início de algum ciclo; semana, mês ou ano. Esperar por uma mudança é, talvez, antecipar o próprio fim.
A vida não mudará se continuarmos com o mesmo velho pensamento de sempre. A vida não mudará se continuarmos na esperança de mudança radical e repentina por uma mágica ou milagre de uma passagem simbólica de tempo. O ano “novo” não terá nada de novo, será apenas mais um dia que começa, assim como todos aqueles que vivemos apenas esperando. O ano só será “diferente” se assim o quisermos, se continuarmos esperando, será mais um loop, a mesma vida, as mesmas escolhas, os mesmos sonhos, os mesmos erros, a mesma esperança. A diferença será apenas a idade. Em algum dado momento sequer conseguiremos manter essa rotina.

           A mudança verdadeira, seja ela qual for, vem de dentro e não depende de nenhum calendário.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

A doença do século

Imagens de  Francesco Romoli

Ele, que sempre repetia tudo que via e ouvia, sem nunca buscar saber a verdade, por preguiça ou desleixo, acabou um dia seguindo uma multidão com panelas e palavras de ordem. Ficou feliz, quem não ficaria, parecia final de copa do mundo e final de copa do mundo é uma festa só, não é? O problema é que ultimamente não andamos muito bem das pernas em copas do mundo. Não foi festa.

Não satisfeito, engrossou o caldo em um espetáculo de circo armado. Gritou, junto com outros, hinos de despedida. Ficou, porém, com vergonha de perguntar quem era tão querida assim para todos se despedirem dela e continuou.

Depois, ainda sob os efeitos da doença da repetição e com os olhos vidrados à TV, falava baixinho um mantra mal feito sobre alguma coisa como não falar em crise e se mexer. Foi quando acordou e revolveu se concentrar no trabalho e estudos, “nada de crise, nada de crise”.

Logo lembrou-se de que não teria mais aulas de espanhol, de que tanto precisava, mesmo morando em um continente em que todos falam essa língua (exceção do Brasil, claro) e esta sendo a segunda mais falada no mundo. E de que no país do futebol, das recém olimpíadas e tão necessitado de movimento, a educação física iria ser reserva. Mais ficou feliz por não mais ter filosofia e sociologia, afinal, pensar para quê?, repetir já estaria muito bom.

Foi ainda feliz ao trabalho, afinal de contas era concursado. Daqui não me tiram, falava sorrindo.

Foi o primeiro a ser demitido. Mas por que, se perguntava atônito, como?

Ainda pensaram em explicar, mas ele não entenderia.

Voltou pensando em usar o FGTS para comprar a casa própria...

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Santo de casa

Dancer Adjusting Her Shoe - Edgar Degas

Olhando-se no espelho, ela foi aos poucos terminando a lenta e exaustiva maquiagem para sua última apresentação, lembrando-se dos anos áureos do auge da carreira. Lembrando-se de toda a vida de dedicação à arte.
Pôs o collant, a sapatilha e se encaminhou para o palco. Já havia ganho tudo o que se podia imaginar, prêmios, dinheiro, amigos e fama. 
Desde criança sonhava em ser artista, queria viver de seu talento, fazer fortuna, ser famosa. Depois que cresceu foi que percebeu o que realmente queria. O que realmente buscava. O que realmente faltava.
Ali estava ela, diante das luzes, na ponta, com o sorriso aberto, mas com a felicidade guardada a sete chaves. Não chegou a se apresentar. Sentou-se, olhou lentamente a plateia do teatro, como buscando alguém e, mais uma vez, sangrou por dentro. Não mais aguentando, chorou copiosamente. Todos no teatro aplaudiram, pensando ser a emoção da despedida.
Ninguém ali nunca soube o porquê daquele choro e o que ela sempre desejou por toda a vida. Pensavam que já tinha conquistado tudo. Que aquela vida era perfeita. Invejavam toda aquela fortuna aparente.
Morreu cercada de medalhas, louros, estranhos e nenhum reconhecimento das pessoas que realmente importavam. Das pessoas de que tanto buscou na plateia por toda a vida. Morreu sem os aplausos daqueles que nunca estavam onde deveriam.
Partiu ainda rica, mas sem nenhuma fortuna.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Fogo brando

Arte de Valentina Photos

Premiado no Prêmio Maximiano Campos de Literatura – Categoria: melhor miniconto.

Foi exatamente, coincidência ou não, quando as trevas me cegaram que pude enxergá-la. Observava-me com olhos de fogo brando, em silêncio de incêndio recém-acabado. Não pronunciou-me nenhuma faísca, ou fogo de festa em noite fria, apenas queimava-me com olhares de soslaio. Deixei-me ser marcado.
Aos poucos, todo o meu corpo ia sendo consumido, ou o que havia restado dele depois das trevas impiedosas, meu sangue borbulhava novamente, assim como quando havia caído. Não era uma ressurreição ou uma volta aos céus, eu continuava a descer, entretanto, dessa vez era diferente.
Senti medo, é certo, quem não sentiria? Era fogo nunca visto antes, era incêndio em mata seca.
Quando cheguei ao último degrau, acompanhado do medo e da dúvida, a vi recuando, a chama sem trégua, o fogo sem medo, o incêndio sem precedentes. Talvez eu fosse água.

* Conto retirado do livro Não se pode mais mar em paz hoje.
Ainda não leu o livro (Não se pode mais amar em paz hoje)? Compre já pela loja online ou pelo facebook.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

A vida é uma música sem fim

Everett Collection



Quando ouvimos a música pela primeira vez, o estranhamento sobe à superfície e a pergunta clássica ressoa pelas paredes, por que me tiraram o silêncio aconchegante? Tudo é novo, tudo é estranho, mas aos poucos nos acostumamos com o diferente, e até que, às vezes, gostamos do ritmo, das vozes, do balanço.
Não demora muito, e o pé direito começa a se chocar contra o solo em ritmo contínuo, tentamos de todas as formas acompanhar aquele som. Ficamos de pé, para tentar aproveitar da melhor forma possível. Muitas vezes caímos, é certo. A queda, aprendemos, muitas muitas vezes e somente alguns, que faz parte. A queda, ainda sim, é um passo.
Tentamos de um jeito, de outro e aos poucos podemos dizer que dançamos ao ritmo da música que toca. Ou pelo menos tentamos, o importante, em muitos casos, é continuar tentando, um dia acertamos o ritmo e pronto, a dança será plena.
Não demora muito e percebemos que dançar sozinho é menos feliz que acompanhado. Começamos a compartilhar abraços e percebemos que mais difícil que encontrar o par perfeito para a dança é acompanhar o ritmo do outro. Muitos conseguem, muitos desistem, muitos não cansam em procurar.
Os que estão de fora (não são todos) veem defeitos nos passos de quem dança, os que estão dançando (não são todos) veem defeitos naqueles que estão sentados, os que não escutam a música (sim, são todos) não conseguem ver muita coisa, além do próprio reflexo.
Mesmo quando não conseguimos ficar de pé, a música continua. Continua viva, no ritmo certo, e dançamos com os olhos, com a boca, com a mente.
Os que não escutam a música e não sentem o ritmo, não admiram a dança, não aproveitam o abraço, não abrem aquele sorriso com a síncope, sequer conseguem ficar de pé por muito tempo.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

O real sentido da vida

Foto de Bruno Mota Pinheiro.


Estava ontem a pensar sobre o real sentido da vida e o desespero se abateu sobre minhas asas. Tanto céu, tantas nuvens, tanto vento e eu aqui perdido, não no espaço, mas nos pensamentos. Sei muito bem onde estou, por isso essa minha agonia.
Todos os dias sempre buscava as migalhas do 43, todos os dias. O céu para mim estava sob o céu, abaixo daquela janela. Ela sabia que eu iria naque­le horário e observava-me com timidez, com vergo­nha, com inveja. Sim, assim como eu, ela também buscava um sentido, buscava encontrar-se em pen­samentos, pensava que a vida era um sonho.
A vida talvez seja um sonho, quem sabe? O problema é que ela tentou despertar. Do alto do prédio, observou o horizonte, como quem diz oi ou adeus, bateu asas, mas não voou.

Hoje, sinto uma dor imensurável, não sei se pela falta das migalhas de cada dia, ou por ter asas e não voar.


* Conto retirado do livro Não se pode mais mar em paz hoje, e inspirado na foto da postagem.
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sexta-feira, 3 de junho de 2016

A vida de ninguém

Foto de Egor Shapovalov

A vida muda na mesma velocidade que termina. A cada dia que passa, temos menos tempo para as menores coisas, esse mesmo tempo, de que muitas vezes reclamamos, é imposto por nós na tentativa de controle da vida, esse mesmo, que hoje traz um desespero imensurável por sua passagem rápida, nos traz sempre a velha lembrança de que tudo tem seu fim.
Essa passagem rápida do tempo era, desta mesma forma, uma constante para Ninguém. O tempo para ele passava rápido demais, mal dava para resolver os pormenores do dia, os problemas se acumulavam para o outro e a bola de neve não tinha mais fim.
Amigos, família e vizinhos eram apenas perda de tempo. Tempo esse que já estava escasso; trabalho, trabalho, trabalho. Seus amigos se acostumaram. Seus familiares se acostumaram. Ele se acostumou. Quando chegava do trabalho, em casa, cansado, ia logo dormir, descansar para trabalhar novamente no dia seguinte.
Durante o sono, sonhava... Sonhava com aquilo que não tinha coragem de revelar, fazia planos para a vida, de morar em uma cidadezinha pequena do interior, onde o tempo não passava, em que o trabalho seria a distração do dia e a obrigação seria apenas a de tentar viver a vida (de verdade) e admirar até onde os olhos pudessem alcançar.
Nos sonhos, Ninguém se libertava, era uma vida paralela rodeada de desejos. Quando despertava, com receio, guardava seu sonho em uma sacola e jogava em algum canto do inconsciente, esperando sonhar novamente com ele no dia seguinte. Sonhava em mudar sua vida, mas não acordava com o mesmo pensamento. Religiosamente, todos os dias a mesma coisa.
Um dia, chegou precisando muito fugir da realidade, dos problemas, das mentiras, das frustrações. Procurou desesperadamente a sacola em que havia guardado seus sonhos, sua vida paralela, sua felicidade.
Não a encontrou.
Desde então Ninguém nunca mais dormiu, Ninguém nunca mais sonhou.

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