quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Desastre somos nós




Uma criança que assistia a tudo pela tevê ficava cada vez mais confusa com toda aquela situação, passava a mão na cabeça, colocava a mão no queixo, olhava pela janela, mas nada disso a fez responder àquela pergunta tão difícil a alguém de tão pouca idade. Teve de recorrer à mãe que passava pela sala naquele momento.

- Mãe, o que é crime?

A mãe do garoto, assustada com aquela pergunta repentina e sem saber explicar corretamente o significado da palavra, recorreu ao dicionário, discretamente,  que estava na estante e respondeu com fluência para o garoto.

-Violação das regras que a sociedade considera indispensáveis à sua existência.

- Então matar é crime, certo, mãe? Mas é claro meu filho, retrucou a mãe imediatamente.

E o filho continuou: então por que dizem na tevê que o rompimento das barragens, que matou pessoas, animais, plantas e a esperança de muitos, por negligência, dinheiro e ganância foi um desastre e não um crime? Será que eles não têm dicionário como a senhora?

A mãe do garoto toda envergonhada pela situação tentou ainda mudar de assunto, mas foi a criança que pôs um ponto final na conversa.

- Ah, entendi mãe, entendi. Foi um desastre sim, mas um desastre humano! 

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Você realmente lê?

Arte de the flickerees

Acho que já se tornou fastidioso falar que leitura é importante para a vida, para a mente, para a alma. Todo mundo já sabe disso, não é verdade? Por isso não vou listar aqui os 10 motivos pelos quais você deva ler. Todos já sabemos (pelo menos uns mil motivos). A pergunta que me instiga é – você realmente lê?
Todos já sabemos, também, de cor e salteado, que ler não é somente decifrar códigos, mas dar vidas às palavras. Uma leitura sem interação, contexto, interpretação é um diálogo com uma pedra. E uma pessoa em sã consciência não anda conversando com pedras por aí (com plantas, talvez...).
Sabendo disso, ratifico a pergunta: você realmente lê?
A leitura, veja só que engraçado, enquanto pode ser para alguns apenas uma pedra (no real sentido da palavra), para outros se transforma no melhor meio de transporte, no melhor refúgio, nas maiores asas, no melhor amigo. Tudo é questão de interpretação. Oh!
Sabendo disso, retifico a pergunta: você se despe ao ler?
A leitura, e é isso que poucos sabem (ou não admitem) é um ato de coragem. Sim, ATO DE CORAGEM. O leitor necessita se despir diante das palavras para que estas possam se revelar, dialogar, viver. Ninguém, porém, tira sua armadura tão facilmente, não é?
O leitor precisa se desnudar da preguiça, da fadiga, das desculpas, do óbvio, do preconceito e de tudo o que possa atrapalhar na caminhada das linhas (vale para a vida também) e se vestir somente com o necessário (e isso só você sabe o que é).    

Diante de tudo, finalizo com mais uma pergunta: você está realmente despido da sua armadura cotidiana para a próxima leitura?

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terça-feira, 3 de novembro de 2015

O problema do mundo não está nos outros

Arte de Tommy Ingberg

“Ah! Como é bom culpar aos demais, não é verdade?”
Tenho certeza de que ninguém nunca ouviu alguém falar isso – EU ADORO CULPAR OS OUTROS!! HA-HA-HA, mas certamente em algum momento o fez (ok, a risada maligna foi um exagero), de uma ou outra maneira. Nós, muitas vezes, culpamos o outro para parecermos melhor, sem perceber que isso não funciona da maneira que pensamos.
– Não fui eu, foi o gato...
Culpar o outro não conserta o que foi feito, muito menos nos deixa menos culpados. Isso também vale para relacionamentos. Acredite, os astros não sabem que você namora, então, não culpe o signo do outro pela sua falha.
­– Ah, mas ele era de escorpião...
Isso me lembra uma história fantasiosa de um homem que todos os dias chegava atrasado no trabalho e usava de uma desculpa para justificar esse atraso – foi culpa do trânsito – da chuva – do pneu que furou – Até que chegando ao final do ano e sem mais a quem ou o que culpar, resolveu sair cedo de casa e em um passe de mágicas, pluft, chegou na hora certa.

Essa mesma mágica funciona em todos os momentos da vida, em todas as atitudes, em todos os lugares. Tenta, qualquer dia desses.

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quinta-feira, 29 de outubro de 2015

O vazio está em todo lugar

Arte de  Mark Samsonovich


Era uma vez, em lugar muito distante, de uma cidade inventada, quase impossível de existir, um rapaz chamado Vazio, que de tão absurdo, também devia ser fantasia.
Era uma pessoa comum, tinha amigos, cachorro... Porém, parecia ser diferente dos demais. Ele sofria de um mal raro, que por muito tempo pensou-se ser incurável e contagioso.
As pessoas, no começo, olhavam de uma forma diferente para ele, com um olhar de estranhamento e reprovação, o que  o deixava bastante constrangido e envergonhado. O tempo, entretanto, fez com que ele se importasse cada vez menos com esses olhares. Até que um dia tudo pareceu normal.  
Vazio jurava que lixo era semente e tentou por toda uma vida plantar, de onde estivesse, os vegetais mais raros do mundo. Não era difícil flagrá-lo tentando plantar uma latinha de refrigerante da janela do ônibus ou uma embalagem de bombom na saída da festa, na rua.
Vazio, que fez jus ao nome, morreu sentado à calçada esperando uma de suas mudas brotar, crente de que elas não nasciam porque as pessoas não regavam direito.

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terça-feira, 27 de outubro de 2015

Maria ia com as outras

Mulher Em Frente ao Espelho - Pablo Picasso

Um dia, Maria, personagem fictícia que vivia na cidade inventada, decidiu que nunca mais iria com as outras, que a partir de agora ela faria somente o que achasse ser o melhor para ela.
Em uma tarde fria do mês de abril, porém, enquanto passeava com seu cachorro, Maria foi interpelada por uma de suas amigas, que perguntou quando ela iria ‘arrumar’ um namorado. A vizinha, que escutava a conversa, foi logo se intrometendo, dizendo que uma moça bonita como ela deveria procurar um namorado logo, e tal e coisa. Outra mulher que passava no local, adivinha? Falou a mesma coisa. Sabe o que Maria fez? Exato.
No dia seguinte, enquanto Maria e seu novo namorado passeavam com o cachorro, foram abordados no mesmo lugar pelas mesmas pessoas, só que agora, elas vendo que Maria havia ‘conseguido’ um namorado, mudaram o discurso, e quase que concomitantemente as mesmas três foram logo perguntando quando o casal iria oficializar a relação, que deveriam se casar logo e tal e coisa. Maria se sentiu tão inferior, por não ser casada ainda, que foi logo tratar do assunto. Marcaram para dali a um mês.
Passada a cerimônia, foram todos para a festa, adivinha quem estava também aproveitando os comes e bebes? E trataram logo de convencer Maria de que um casamento sem filhos não era um casamento e tal e coisa. Não preciso nem falar o que Maria fez, não é?
Após um tempo, enquanto passeava com os dois filhos e os três cachorros, Maria foi abordada por mais uma amiga que foi logo perguntando como ela aguentava estar casada a tanto tempo, que bom mesmo era estar livre, sem ‘correntes’ e tal e coisa.
Maria se separou, voltou a ir com as outras e percebeu que as amigas não haviam pago suas contas.

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quarta-feira, 21 de outubro de 2015

A banalização do amor

Fisherman - Claudio Souza Pinto


Imagine a seguinte situação: você está andando pela rua e de repente todos os habitantes da cidade abrem suas janelas e de lá arremessam papéis com escritos representando seus sentimentos, pensamentos, opiniões e, claro, muitas folhas em branco. Você ainda tenta ler algumas, na tentativa de conseguir completar a caminhada,  mas a quantidade de papel é tão absurda que você sucumbe em meio ao mar de folhas.
Loucura? Essa sem dúvida seria a rede social que conhecemos hoje, se não tivessem inventado a internet. Já imaginou?
Que bom então que a inventaram, certo? Certo, foi de grandíssimo valor. Muitas coisas ficaram mais rápidas, mais fáceis, mais cômodas, o mundo ficou pequeno. E parece que nossa mente também. Essa rapidez, esse imediatismo que a internet nos condicionou, reflete-se nos nossos sentimentos. Amamos mais rápido.
Que maravilhoso! – gritou alguém lá da calçada.
Retificando, postamos que amamos mais rápido. O que temos que ter em mente é que muita coisa entra e sai de moda. Roupas, por exemplo. Hoje achamos meio ridículo os trajes que usamos (ou vimos) nos anos de 1970, mas à época eram ‘supimpa’. Não transformemos o amor em uma roupa, o amor não está na moda. A moda acaba com as pessoas, destrói a personalidade, te força a algo. Se seu amor envolve isto, lamento.
O que está em moda hoje, e mais um vez repito, não confundamos, é a tal da # (hashtag), e se ela vier acompanhada de um te amo, então – #teamo – é como se usássemos uma calça boca de sino nos anos da brilhantina, você é igual a todo mundo.
Ser igual nem sempre é bom, certo? – perguntou a menininha que passeava com o cachorro.

Nunca é bom. Se você ama, diga que ama, poste 25 # (hashtags) e tudo o que tem direito. Mas por favor, não siga uma moda que você possa se arrepender no outro dia. Roupas não têm sentimentos. 


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quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Sabe aquela velha história de que segunda eu começo?

Arte de Silvio Alvarez

Hoje, caminhando pela calçada, peguei-me pensando na maior promessa feita pela humanidade. Naquela que grande parte da população fez em vão ou fará. Segunda eu começo/eu termino.
Quase fui atropelado.
Depois do susto, surgiu-me outro insight, daqueles que só aparecem nessas situações extremas, e se segunda não existir? Será uma frustração a mais comigo?
Muitos utilizam essa famigerada afirmação como indicativa de que uma atitude só poderá ser tomada no início da semana. Como se a semana começasse na segunda.
O que também não percebemos é que quando chegamos ao ponto de utilizar essa afirmação, que em 90% das vezes não é cumprida, é porque já passamos daquela linha imaginária que marcava o que era o limite, independente da meta que seria estabelecida.
E a coisa mais importante, costumamos nos esquecer que a vida, às vezes, não tem a mesma paciência que nós.
– Então é carpe diem, certo? Falou alguém lá na cozinha.
Não exatamente. Quando Horácio escreveu em seu poema “carpe diem, quam minimum credula postero" ele falava mais em colher o dia de hoje e confiar o mínimo possível no amanhã, e isso nos dias atuais soa como algo irresponsável. Os muitos que tomaram os versos de Horácio como teoria, acordaram no outro dia arrependidos, de uma forma ou outra.
O lugar em que o meu pensamento do quase atropelamento me levou foi para algo mais palpável, senão, mais próximo da nossa realidade.  
– Lá vem mais uma receita de felicidade! Cochichou alguém lá na sala.
Não, não é uma receita. Primeiro porque receitas nunca saem iguais, o que é bom para mim não é para outro. Segundo que isso não existe. Se alguém tentar te vender algo parecido com uma receita de felicidade, não compre. Use o dinheiro para ajudar alguém que certamente te fará mais feliz.

Ele me levou para o óbvio, todos sabemos como ser feliz. Cada um sabe do seu. A única coisa que nos impede é o medo. Medo do novo, do escuro. Talvez seja esse o motivo de tudo começar (na teoria) na segunda-feira, temos tempo para desistir.

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terça-feira, 4 de agosto de 2015

Por que dançar tango?

Juárez Machado


Sem dúvida, essa é uma pergunta que todo mundo (que ainda não dança tango) deve se fazer; por que dançar esse ritmo? Além de outras perguntas, com certeza, devem surgir, a posteriori, algumas afirmações, como: tango é chique demais para mim; ou, tango é complicado demais para mim...
Eu poderia listar algumas dezenas de coisas como forma de convencimento, como o prazer de um abraço, quando se dança; a sinergia quando da escuta de uma canção centenária que ainda vive, encanta e arrepia; a entrega e a confiança quando da caminhada sutil e leve; os risos compartilhados durante uma tanda, as amizades feitas e fortalecidas com as melhores pessoas que se pode encontrar; o aprendizado com a história e a tradição de um patrimônio imaterial.
Poderia, também, discorrer os motivos pelos quais o tango pode mudar uma vida. Falar sobre o aumento da autoestima, a saída do sedentarismo, a aquisição de saúde, o compartilhamento da felicidade.
Talvez até, transcrever depoimentos das dezenas de pessoas que conheço e que tem algo a dizer sobre. Entretanto, sei que tais métodos, hoje, surtem pouco efeito. Sei, inclusive, que poucos lerão até aqui.
Pensando nisso, tentarei responder à pergunta feita inicialmente, da maneira mais prática, fácil e rápida possível, atendendo à demanda atual, com outra pergunta:
Por que deixar para ser feliz depois?

terça-feira, 21 de julho de 2015

O maldito ciclo do coração


Havia decidido passear pela orla, em uma última tentativa de esquecer mais uma frustração de um relacionamento fracassado. Nunca mais me apaixono, nunca mais, gritava em pensamentos. Não sei se houve um culpado, mas me agarrei na prerrogativa de que aquilo era um ciclo e como tal havia se renovado.
Sentei no primeiro banco que vi, comprei um sorvete e comecei apreciar o mar, as pessoas; a escutar as conversas, a me distrair. Até que a paz que havia levado horas para conseguir foi carregada pelo vento.
Um homem, a quem julguei louco, a princípio, estava agitado e parecia buscar alguém na multidão.
Senti-me incomodado no começo, mas depois, foi só inveja, admito. E, em pouco tempo, aquela inveja deu lugar à inspiração.
Coloquei na cabeça que se ele conseguiu daquela forma, tão facilmente, eu também poderia. Larguei o sorvete e a promessa e saí correndo para o outro lado da rua para fazer o mesmo que ele. Fiz. Seria o fim da minha tristeza, pensei.
Para a primeira que passou, ele se pôs à frente e perguntou: “Você quer um amor verdadeiro para a vida inteira?”. Ela, emocionada, aceitou e os dois saíram de mãos dadas.
 Só depois que descobri que ali eram atores em pleno exercício da profissão. Já era tarde. O ciclo continuou da mesma forma, porém, agora, eu estava sem o sorvete e com uma nova promessa na cabeça.  

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Do amor (moderno)

Les Amants (Gli Amanti)  René Magritte

Depois de muitos anos sem se ver, duas amigas se esbarram na rua, enquanto faziam compras, e aquele cheirinho de boas conversas volta ao ar.
As duas tentam, ali, rapidamente, repor os anos de ausência e distância. Com aquele clima nostálgico, perguntam sobre estudos, trabalhos, férias e viagens. Não se sabe se por aparência, ou coincidência, mas tudo estava as mil maravilhas para ambas.  
Até que o bom e velho assunto surge.
O amor, ou o que se pensa ser ele, está cada vez mais em evidência, principalmente por conta das redes sociais. Amar hoje é fazer uma selfie com o(a) amado(a) e postar na rede social favorita esperando a aprovação de uma centena de desconhecidos. Amar deixou de ser, para muitos, um sentimento e virou uma vitrine, ou seria um status?

Ao ser indagada pela amiga sobre a vida amorosa, responde com a alegria jovial de quem passou no vestibular; “meu namoro está ótimo, bem no início, é certo, mas já temos 400 curtidas e 300 comentários, e o seu?”. Ela ainda esboçou uma resposta, mas preferiu ser atropelada pelo ônibus que passava. 

terça-feira, 30 de junho de 2015

Crônica de um homem que não sabia dançar (ou o balé da libertação de pensamentos perdidos)

Michael Cheval

Antes de mais, sim, homem dança. Antes de tudo, não. Não é um bicho de sete cabeças (na verdade não é sequer um bicho).  
Reza a tradição popular que há duas explicações lógicas para o homem que não sabe dançar (poderia ser a mulher também). Primeira: vergonha de errar, de se expor, de parecer ridículo. Segunda: Engoliu um cabo de vassoura.
Admito que, indo em contradição à famigerada música, o primeiro passo não é fácil (leia-se ter a atitude de começar). Há, ainda hoje, infelizmente, muitas pessoas que pensam que a dança não é uma atividade masculina, pobres almas, e isso reflete muito na opinião alheia (as antigas e velhas conhecidas amizades). E há àquelas que veem essa arte como um bicho de sete cabeças.
Aos primeiros deixo meu silêncio (que já é muito). Aos segundos, digo: não existe bicho nenhum na dança, independente do ritmo escolhido. Como disse um professor certa vez, se você sabe caminhar, saberá dançar, e isso é uma verdade incontestável.
Outra verdade é que o principal sinônimo da palavra dança é autoestima. Não existe restrições quanto à idade, peso ou altura. O casal perfeito não é o mais bonito, tampouco o mais esbelto. Sim o que flutua.
 Há também, algumas verdades ocultas, ou que demoramos a percebê-las. É a verdade dos olhos alheios. Acredite, ninguém está olhando para você ou julgando se os seus movimentos estão certos ou errados, mas não adianta dizer, você só admitirá isso depois de certa prática, quando já estiver elaborando passos complexos e ninguém como plateia.
A dança é, acima de tudo, uma atividade de disciplina, de cavalheirismo, de bons modos, de elegância. É uma metáfora da vida e do relacionamento a dois. Há que saber confiar no outro e onde e como pisar.
E por último, dançar é saber utilizar a primeira ação da harmonia, escutar. Não há dança sem música, isso parece ser bastante claro, mas não se engane, saber executar passos aleatórios não é dança, se esta não vier acompanhada da harmonia da canção. 
Entrei nesse mundo mágico-real há alguns meses, (sim, cuspi o cabo de vassoura e a vergonha de errar) e todo dia após mais uma aula ou baile, uma pergunta vem à mente. Por que diabos não comecei mais cedo? Nunca me conformo.  

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Receita para o amor eterno

Mulher chorando - Pablo Picasso


Certa vez, enquanto esperava para fazer sua escova, leu na revista semanal do salão de beleza que para o amor perdurar, teria que fazer o que as mulheres estampadas no folhetim faziam e seguir três passos cruciais.
Receita para o amor da vida inteira, dizia a manchete.
É infalível, relatava uma das famosas da revista.
Ela, já animada com a notícia, abriu um sorriso sem precedentes. Enquanto chegava sua vez de ser atendida, decorou os passos da receita e prometeu colocá-la em prática ao chegar em casa.
Ao ser atendida, porém, mais uma vez buscou uma outra revista como passatempo, desta vez a mensal. E, por coincidência, ou não, esta trazia como destaque uma receita para o amor não morrer.
Esqueça tudo o que você já leu sobre o assunto, dizia a reportagem, nós temos a receita para seu amor durar para sempre.
Ela, mais uma vez se animou e leu ferozmente tudo o que ali estava escrito.
Eufórica, com a receita em mente, saiu do salão já planejando como colocaria tudo em prática. Colocou.
Dois dias depois o namoro havia acabado. Ela inconformada e triste com a separação e ainda mais com a receita falha, ligou para o SAC da revista afim de fazer uma reclamação. Rapidamente, porém, seu semblante mudou completamente. E ela quase deu pulinhos de felicidade.
A revista desta semana trará uma receita facílima de como recuperar o amor perdido, falou a atendente do outro lado da linha.

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Bodas de papel

Galatea of the Spheres - Salvador Dalí

Reserva para dois. Bodas de papel – falou ao telefone.
Os dois chegaram pontualmente no horário combinado. Bem arrumados e elegantes. Não havia lugar melhor para comemorar, pensava ela, afinal, tivera sido em um restaurante (um bar, meia boca, na verdade) que haviam se conhecido.
Até que enfim vamos ficar a sós, falou baixinho para o amado.
O garçom, gentilmente, acomodou os dois e entregou os menus. Escolheram sem pressa e aguardaram os pedidos enquanto colocavam a conversa em dia.
Até que enfim vamos ficar a sós, repetiu baixinho, com mais alegria ainda, para o amado.
Ela tentou colocar a conversa em dia e começou falando do trabalho, das amigas, daquele relacionamento e tentou até se cansar, mas nenhuma resposta, ao menos dissílaba, saiu da boca do seu companheiro, que incansavelmente procurava por algo. Nas paredes, nas colunas, no menu.

Foi quando ele encontrou o que tanto buscava que ela convidou o silêncio para sentar em seu lugar e saiu. Wi-fi grátis. Nem sequer deu tempo de ele fazer o check in.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Dia dos namorados

Foto mais conhecida do fotógrafo francês Doisneau – expressando o romance em Paris. 


Já era de se esperar, é dia dos namorados, ora bolas! Claro que comprei o seu presente, como iria esquecer essa data tão importante para nós? Disse vendo o sorriso daquela que me olhava com olhos marejados.
A verdade era que não fazia ideia do porquê da troca de presentes nessa data, mas como era tradição (leia-se pressão )... Tinha quase certeza que havia sido obra de marketing, daquelas compre esse cinto e segure o seu amor, e aposto que foi este mesmo comerciante de cintos que soltou o boato que presentear perfume era perigoso, pois se usado até o final o amor acabaria, para derrubar a concorrência. Muitos guardaram o frasco pela metade de perfume e ainda sim viram o “amor” sair pela janela e correr pelo campo.
Ela, emocionada, com a grande caixa de presente à mão abriu-a lentamente, e ao vê-lo não acreditou e começou a chorar. Chorou copiosamente. Aguardei se recompor e retribuir ao regalo de alguma forma. Com algum sorriso ou abraço que fosse.
Havia estudado, tempos antes, que antigamente o amor era reconhecido e agradecido da forma mais simples, porque este já era o principal. E tudo havia começado com Valentim, um bispo da idade média, cuja história não é relevante neste momento, e que depois de muitos anos o dia e mês de sua suposta morte foi relembrado pelos amantes, principalmente com mensagens de amor na soleira das portas.
Preferi mudar a tradição, confesso, era um pouco ultrapassada para os dias atuais. Hoje, o que se coloca na soleira das portas são dívidas, e não é nada romântico.
Nem sorriso, nem abraço. Fechou a porta à minha cara e de dentro da casa sussurrou – ele não me ama.

Fiquei pensando se era por que eu não havia desenhado um coração no cartão. 

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Amor perfeito

Woman with book - Pablo Picasso 


Ele, machão declarado ao vento, e valentão das esquinas vazias, estufava o peito e falava sem cerimônia àquilo que todos queriam ouvir à mesa do bar. Era garanhão das calçadas, romântico das rosas alheias, ladrão de olhares perdidos.
Tinha sempre, à ponta da língua, o afago mais belo a quem fosse. Todos os dias, também, fazia questão de abrir a porta do escritório às colegas de trabalho, e dizia um elogio distinto a cada.
Todas o tinham como o maior cavalheiro que já se teve notícias por lá.
- Era perfeito, gritou uma colega lá do fundão.
Ele, porém, cultivava em casa um lindo e belo amor ausente com a esposa. Não a afagava, quando do choro. Não a elogiava, quando da dúvida. Não abriu a porta para ela, quando da despedida.
- Era fachada, sussurrou a esposa ao abandoná-lo.


segunda-feira, 1 de junho de 2015

O que é o amor?

O Beijo (Le Baiser, 1969) de Pablo Picasso

Afinal, o que é o amor? Perguntaram-me isso há pouco, na rua, por ocasião de um lançamento de livro e não tive dúvidas quanto à resposta. O amor é nuvem (Bukowski disse cão dos infernos, mas vendo aqueles olhos marejados não quis ser tão realista). Ela olhou para o céu, para mim e ficou um pouco mareada com a resposta. Logo em seguida continuou - Como o amor pode ser nuvem se nem ao menos consigo alcançá-la? Se não sei o seu gosto. O seu cheiro. A sua forma. Se não sei como surge ou desaparece? Você é louco, como o amor pode ser tal coisa? Como pode comparar o sublime dos sentimentos à uma simplória coisa sem expressão?, - falou ainda indignada.

Apenas escutava, com um pouco de angústia, é verdade, imaginava o que poderia vir depois dali.

Não deu outra.

Foi quando ela esbravejou que para uma coisa ser amor de verdade, (nunca vi amor de mentira) tinha que tocá-la, emocioná-la, surpreendê-la, tinha que ser grandiosa a tal ponto de ela não saber o que fazer.

A chuva caiu como pedra sobre nós.


Ela, já correndo, sem saber para onde ir, na tentativa de se abrigar do amor que caía e escorria pelo bueiro, digo, da chuva, ainda perguntou baixinho, meio envergonhada – e a paixão? O relâmpago foi tão rápido e o trovão tão ensurdecedor que não precisei responder. 

sexta-feira, 29 de maio de 2015

MEMÓRIA DE ELEFANTE - Conto 2

The elephants - Salvador Dali



Confesso que ela não era tão bonita quanto minha mulher, nem tão inteligente. A verdade é que ela nem era tão boa assim de cama. Fria. Mas havia se oferecido assim de uma forma tão... Sabe quando uma fruta cai da árvore? Peguei.
Ainda saímos umas três ou quatro vezes. Era magra, cabelo escuro. Sua voz era grave, bela, boa de ouvir, e quando dizia no meu ouvido... Sou sua... Ah!.
Quando chegava em casa, minha mulher me tratava como sempre. Meio sorriso na boca, olhar de cansada, um boa noite e um beijo com gosto de arroz, alho, sal, pimenta... Só de beijá-la eu sabia o que teria para o jantar. Todos os dias a mesma coisa. Depois do jantar subíamos para o quarto e era aí que se revelava o verdadeiro amor entre nós. Cada um virava para o lado e dormia. Meu corpo já não aguentava tamanha exaustão.
Ela era uma dona de casa excelente, talvez fosse, também, uma ótima mãe.
A consciência, pelo menos a minha, tem um limite. Um dia cheguei para ela e quebrei a rotina, falei tudo. “Ando saindo com outra... E não foi a primeira vez”. Ela então me olhou, baixou a cabeça, fechou a mão e... Eu, naquele momento, me preparei para o pior, sabia que meu nariz não seria o mesmo, que a cirurgia de reconstrução modificaria minha face... Apenas fechei os olhos e esperei ter o rosto arremessado de pancadas, de ser rasgado e desfigurado por aquelas enormes unhas, de ser chamado dos piores e vis nomes que ela conhecesse. Foi quando me surpreendi. Ela, chorando, me abraçou e me perdoou.
A princípio não soube o que fazer, não sabia se colocava a mão no bolso ou na cabeça. Não sabia se chorava ou ria; Não sabia se abraçava aquela mulher de olhos tristes ou saía dali correndo. Fiquei. Sem graça. Sem jeito. Aliviado.
Aquilo tinha sido uma prova irrefutável de que ela me amava. Tudo voltou ao normal, tínhamos a nossa velha rotina de sempre. Eu até já estava esquecendo o meu deslize.
Ela não.
Uma vez escutei que mulher tinha memória de elefante. Hoje eu sei o porquê da comparação. Enquanto eu dormia, num daqueles meus sonos profundos, ela tirou a minha vida. Sim, minha vida. A tesoura de tecidos ainda estava no chão quando a ambulância chegou. Agora, ela tinha a certeza que nunca mais eu iria traí-la.  

Um homem completo - Conto 1

The Night Cafe - Vincent Van Gogh


Sempre dizia que queria ser pai. É sonho antigo! No bar eu berrava sem medo, “um homem só será completo quando for pai”, e virava mais um copo. A verdade é que estava casado a pouco tempo, e não passava pela minha cabeça ter um filho agora. Falava isso na mesa, diante dos amigos de chopp e da espuma para justificar minha presença ali e não em casa. Até mesmo um cafajeste precisa de consciência limpa, mesmo que seja por uma justificativa inválida ou falha. E não é que dava certo! Quando percebia a hora, “Cacilda”, já era domingo. Eu me despedia e ia cambaleando para casa. E era aquela velha história de sempre, demorava uma eternidade para achar a fechadura da porta e quando conseguia abrir, tcharan!, lá estava ela.
No começo minha mulher virava o demônio quando, depois de dois dias, eu chegava da zona, todo amassado e expelindo dos poros aquele odor de cerveja e cigarro barato. Ela odiava esses meus dois vícios. Desde quando nos conhecemos que sei disso, mas é inevitável. É mais forte. Você não tem vergonha? - falava ela aos gritos e soluços - Mais uma vez ter me trocado por seus vícios e amigos?... blá blá blá... Depois de alguns segundos só escutava isto.
De uns tempos para cá, ela estava mais conformada. Não gritava nem brigava mais. Ela me amava, é claro.
Um dia, como sempre, cheguei e ela me surpreendeu com seus gritos histéricos novamente - A princípio, não dei muita importância, era o mais do mesmo, até que aquela palavra surgiu. Espera, espera, repete o que disse, falei ainda meio tonto. –  Como você pode continuar nessa vida? – Não, a outra parte. –  Qual o exemplo que dará para nosso filho? Sim, isso. Não, como assim filho? “Filho?”, gritei. Não queria ser um homem completo agora, agora não. Na verdade, naquele momento eu pensei no quão perigoso é desejar algo. O chão naquele momento sumiu, fiquei sem norte e pensativo durante todo o dia. Pensava agora em como limpar a consciência novamente. “Filho?” É, filho... Falou ela com os olhos banhados em lágrimas, não sei ainda se de felicidade ou de angústia.
–  E por que você voltou para o bar? E aquele seu discurso...?
­– É, sou um homem completo, não posso negar, mas não perfeito. Tem fogo aí?  

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