sexta-feira, 29 de maio de 2015

MEMÓRIA DE ELEFANTE - Conto 2

The elephants - Salvador Dali



Confesso que ela não era tão bonita quanto minha mulher, nem tão inteligente. A verdade é que ela nem era tão boa assim de cama. Fria. Mas havia se oferecido assim de uma forma tão... Sabe quando uma fruta cai da árvore? Peguei.
Ainda saímos umas três ou quatro vezes. Era magra, cabelo escuro. Sua voz era grave, bela, boa de ouvir, e quando dizia no meu ouvido... Sou sua... Ah!.
Quando chegava em casa, minha mulher me tratava como sempre. Meio sorriso na boca, olhar de cansada, um boa noite e um beijo com gosto de arroz, alho, sal, pimenta... Só de beijá-la eu sabia o que teria para o jantar. Todos os dias a mesma coisa. Depois do jantar subíamos para o quarto e era aí que se revelava o verdadeiro amor entre nós. Cada um virava para o lado e dormia. Meu corpo já não aguentava tamanha exaustão.
Ela era uma dona de casa excelente, talvez fosse, também, uma ótima mãe.
A consciência, pelo menos a minha, tem um limite. Um dia cheguei para ela e quebrei a rotina, falei tudo. “Ando saindo com outra... E não foi a primeira vez”. Ela então me olhou, baixou a cabeça, fechou a mão e... Eu, naquele momento, me preparei para o pior, sabia que meu nariz não seria o mesmo, que a cirurgia de reconstrução modificaria minha face... Apenas fechei os olhos e esperei ter o rosto arremessado de pancadas, de ser rasgado e desfigurado por aquelas enormes unhas, de ser chamado dos piores e vis nomes que ela conhecesse. Foi quando me surpreendi. Ela, chorando, me abraçou e me perdoou.
A princípio não soube o que fazer, não sabia se colocava a mão no bolso ou na cabeça. Não sabia se chorava ou ria; Não sabia se abraçava aquela mulher de olhos tristes ou saía dali correndo. Fiquei. Sem graça. Sem jeito. Aliviado.
Aquilo tinha sido uma prova irrefutável de que ela me amava. Tudo voltou ao normal, tínhamos a nossa velha rotina de sempre. Eu até já estava esquecendo o meu deslize.
Ela não.
Uma vez escutei que mulher tinha memória de elefante. Hoje eu sei o porquê da comparação. Enquanto eu dormia, num daqueles meus sonos profundos, ela tirou a minha vida. Sim, minha vida. A tesoura de tecidos ainda estava no chão quando a ambulância chegou. Agora, ela tinha a certeza que nunca mais eu iria traí-la.  

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