sexta-feira, 29 de maio de 2015

Um homem completo - Conto 1

The Night Cafe - Vincent Van Gogh


Sempre dizia que queria ser pai. É sonho antigo! No bar eu berrava sem medo, “um homem só será completo quando for pai”, e virava mais um copo. A verdade é que estava casado a pouco tempo, e não passava pela minha cabeça ter um filho agora. Falava isso na mesa, diante dos amigos de chopp e da espuma para justificar minha presença ali e não em casa. Até mesmo um cafajeste precisa de consciência limpa, mesmo que seja por uma justificativa inválida ou falha. E não é que dava certo! Quando percebia a hora, “Cacilda”, já era domingo. Eu me despedia e ia cambaleando para casa. E era aquela velha história de sempre, demorava uma eternidade para achar a fechadura da porta e quando conseguia abrir, tcharan!, lá estava ela.
No começo minha mulher virava o demônio quando, depois de dois dias, eu chegava da zona, todo amassado e expelindo dos poros aquele odor de cerveja e cigarro barato. Ela odiava esses meus dois vícios. Desde quando nos conhecemos que sei disso, mas é inevitável. É mais forte. Você não tem vergonha? - falava ela aos gritos e soluços - Mais uma vez ter me trocado por seus vícios e amigos?... blá blá blá... Depois de alguns segundos só escutava isto.
De uns tempos para cá, ela estava mais conformada. Não gritava nem brigava mais. Ela me amava, é claro.
Um dia, como sempre, cheguei e ela me surpreendeu com seus gritos histéricos novamente - A princípio, não dei muita importância, era o mais do mesmo, até que aquela palavra surgiu. Espera, espera, repete o que disse, falei ainda meio tonto. –  Como você pode continuar nessa vida? – Não, a outra parte. –  Qual o exemplo que dará para nosso filho? Sim, isso. Não, como assim filho? “Filho?”, gritei. Não queria ser um homem completo agora, agora não. Na verdade, naquele momento eu pensei no quão perigoso é desejar algo. O chão naquele momento sumiu, fiquei sem norte e pensativo durante todo o dia. Pensava agora em como limpar a consciência novamente. “Filho?” É, filho... Falou ela com os olhos banhados em lágrimas, não sei ainda se de felicidade ou de angústia.
–  E por que você voltou para o bar? E aquele seu discurso...?
­– É, sou um homem completo, não posso negar, mas não perfeito. Tem fogo aí?  

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