quinta-feira, 29 de outubro de 2015

O vazio está em todo lugar

Arte de  Mark Samsonovich


Era uma vez, em lugar muito distante, de uma cidade inventada, quase impossível de existir, um rapaz chamado Vazio, que de tão absurdo, também devia ser fantasia.
Era uma pessoa comum, tinha amigos, cachorro... Porém, parecia ser diferente dos demais. Ele sofria de um mal raro, que por muito tempo pensou-se ser incurável e contagioso.
As pessoas, no começo, olhavam de uma forma diferente para ele, com um olhar de estranhamento e reprovação, o que  o deixava bastante constrangido e envergonhado. O tempo, entretanto, fez com que ele se importasse cada vez menos com esses olhares. Até que um dia tudo pareceu normal.  
Vazio jurava que lixo era semente e tentou por toda uma vida plantar, de onde estivesse, os vegetais mais raros do mundo. Não era difícil flagrá-lo tentando plantar uma latinha de refrigerante da janela do ônibus ou uma embalagem de bombom na saída da festa, na rua.
Vazio, que fez jus ao nome, morreu sentado à calçada esperando uma de suas mudas brotar, crente de que elas não nasciam porque as pessoas não regavam direito.

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terça-feira, 27 de outubro de 2015

Maria ia com as outras

Mulher Em Frente ao Espelho - Pablo Picasso

Um dia, Maria, personagem fictícia que vivia na cidade inventada, decidiu que nunca mais iria com as outras, que a partir de agora ela faria somente o que achasse ser o melhor para ela.
Em uma tarde fria do mês de abril, porém, enquanto passeava com seu cachorro, Maria foi interpelada por uma de suas amigas, que perguntou quando ela iria ‘arrumar’ um namorado. A vizinha, que escutava a conversa, foi logo se intrometendo, dizendo que uma moça bonita como ela deveria procurar um namorado logo, e tal e coisa. Outra mulher que passava no local, adivinha? Falou a mesma coisa. Sabe o que Maria fez? Exato.
No dia seguinte, enquanto Maria e seu novo namorado passeavam com o cachorro, foram abordados no mesmo lugar pelas mesmas pessoas, só que agora, elas vendo que Maria havia ‘conseguido’ um namorado, mudaram o discurso, e quase que concomitantemente as mesmas três foram logo perguntando quando o casal iria oficializar a relação, que deveriam se casar logo e tal e coisa. Maria se sentiu tão inferior, por não ser casada ainda, que foi logo tratar do assunto. Marcaram para dali a um mês.
Passada a cerimônia, foram todos para a festa, adivinha quem estava também aproveitando os comes e bebes? E trataram logo de convencer Maria de que um casamento sem filhos não era um casamento e tal e coisa. Não preciso nem falar o que Maria fez, não é?
Após um tempo, enquanto passeava com os dois filhos e os três cachorros, Maria foi abordada por mais uma amiga que foi logo perguntando como ela aguentava estar casada a tanto tempo, que bom mesmo era estar livre, sem ‘correntes’ e tal e coisa.
Maria se separou, voltou a ir com as outras e percebeu que as amigas não haviam pago suas contas.

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quarta-feira, 21 de outubro de 2015

A banalização do amor

Fisherman - Claudio Souza Pinto


Imagine a seguinte situação: você está andando pela rua e de repente todos os habitantes da cidade abrem suas janelas e de lá arremessam papéis com escritos representando seus sentimentos, pensamentos, opiniões e, claro, muitas folhas em branco. Você ainda tenta ler algumas, na tentativa de conseguir completar a caminhada,  mas a quantidade de papel é tão absurda que você sucumbe em meio ao mar de folhas.
Loucura? Essa sem dúvida seria a rede social que conhecemos hoje, se não tivessem inventado a internet. Já imaginou?
Que bom então que a inventaram, certo? Certo, foi de grandíssimo valor. Muitas coisas ficaram mais rápidas, mais fáceis, mais cômodas, o mundo ficou pequeno. E parece que nossa mente também. Essa rapidez, esse imediatismo que a internet nos condicionou, reflete-se nos nossos sentimentos. Amamos mais rápido.
Que maravilhoso! – gritou alguém lá da calçada.
Retificando, postamos que amamos mais rápido. O que temos que ter em mente é que muita coisa entra e sai de moda. Roupas, por exemplo. Hoje achamos meio ridículo os trajes que usamos (ou vimos) nos anos de 1970, mas à época eram ‘supimpa’. Não transformemos o amor em uma roupa, o amor não está na moda. A moda acaba com as pessoas, destrói a personalidade, te força a algo. Se seu amor envolve isto, lamento.
O que está em moda hoje, e mais um vez repito, não confundamos, é a tal da # (hashtag), e se ela vier acompanhada de um te amo, então – #teamo – é como se usássemos uma calça boca de sino nos anos da brilhantina, você é igual a todo mundo.
Ser igual nem sempre é bom, certo? – perguntou a menininha que passeava com o cachorro.

Nunca é bom. Se você ama, diga que ama, poste 25 # (hashtags) e tudo o que tem direito. Mas por favor, não siga uma moda que você possa se arrepender no outro dia. Roupas não têm sentimentos. 


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