segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

A ilusão do ano “novo”

Imagem de frankie's.


Quantas vezes já não ouvimos a famigerada frase de que ano quem vem será diferente, de que em janeiro começo a dieta, a reestruturação financeira, a atividade física? Quantas vezes já não falamos que no ano que vem tudo mudará, porque será uma nova vida? Muitas vezes. Sabe por quê?Apegamo-nos facilmente à esperança de algo que não está palpável. De algo que está sempre por perto e concomitantemente distante. O futuro.
Se no ano seguinte tudo pode ser maravilhosamente diferente em nossas vidas e tudo isso depende de nossa atitude e força de vontade, por que não começar hoje, agora? Por que esperar mais tantos dias para isso? Pelo simples motivo de que agora eu preciso de coragem. Coragem não para começar realmente, mas para quebrar uma regra que foi imposta, de que somente pode-se começar alguma mudança no início de algum ciclo; semana, mês ou ano. Esperar por uma mudança é, talvez, antecipar o próprio fim.
A vida não mudará se continuarmos com o mesmo velho pensamento de sempre. A vida não mudará se continuarmos na esperança de mudança radical e repentina por uma mágica ou milagre de uma passagem simbólica de tempo. O ano “novo” não terá nada de novo, será apenas mais um dia que começa, assim como todos aqueles que vivemos apenas esperando. O ano só será “diferente” se assim o quisermos, se continuarmos esperando, será mais um loop, a mesma vida, as mesmas escolhas, os mesmos sonhos, os mesmos erros, a mesma esperança. A diferença será apenas a idade. Em algum dado momento sequer conseguiremos manter essa rotina.

           A mudança verdadeira, seja ela qual for, vem de dentro e não depende de nenhum calendário.

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

A doença do século

Imagens de  Francesco Romoli

Ele, que sempre repetia tudo que via e ouvia, sem nunca buscar saber a verdade, por preguiça ou desleixo, acabou um dia seguindo uma multidão com panelas e palavras de ordem. Ficou feliz, quem não ficaria, parecia final de copa do mundo e final de copa do mundo é uma festa só, não é? O problema é que ultimamente não andamos muito bem das pernas em copas do mundo. Não foi festa.

Não satisfeito, engrossou o caldo em um espetáculo de circo armado. Gritou, junto com outros, hinos de despedida. Ficou, porém, com vergonha de perguntar quem era tão querida assim para todos se despedirem dela e continuou.

Depois, ainda sob os efeitos da doença da repetição e com os olhos vidrados à TV, falava baixinho um mantra mal feito sobre alguma coisa como não falar em crise e se mexer. Foi quando acordou e revolveu se concentrar no trabalho e estudos, “nada de crise, nada de crise”.

Logo lembrou-se de que não teria mais aulas de espanhol, de que tanto precisava, mesmo morando em um continente em que todos falam essa língua (exceção do Brasil, claro) e esta sendo a segunda mais falada no mundo. E de que no país do futebol, das recém olimpíadas e tão necessitado de movimento, a educação física iria ser reserva. Mais ficou feliz por não mais ter filosofia e sociologia, afinal, pensar para quê?, repetir já estaria muito bom.

Foi ainda feliz ao trabalho, afinal de contas era concursado. Daqui não me tiram, falava sorrindo.

Foi o primeiro a ser demitido. Mas por que, se perguntava atônito, como?

Ainda pensaram em explicar, mas ele não entenderia.

Voltou pensando em usar o FGTS para comprar a casa própria...

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Santo de casa

Dancer Adjusting Her Shoe - Edgar Degas

Olhando-se no espelho, ela foi aos poucos terminando a lenta e exaustiva maquiagem para sua última apresentação, lembrando-se dos anos áureos do auge da carreira. Lembrando-se de toda a vida de dedicação à arte.
Pôs o collant, a sapatilha e se encaminhou para o palco. Já havia ganho tudo o que se podia imaginar, prêmios, dinheiro, amigos e fama. 
Desde criança sonhava em ser artista, queria viver de seu talento, fazer fortuna, ser famosa. Depois que cresceu foi que percebeu o que realmente queria. O que realmente buscava. O que realmente faltava.
Ali estava ela, diante das luzes, na ponta, com o sorriso aberto, mas com a felicidade guardada a sete chaves. Não chegou a se apresentar. Sentou-se, olhou lentamente a plateia do teatro, como buscando alguém e, mais uma vez, sangrou por dentro. Não mais aguentando, chorou copiosamente. Todos no teatro aplaudiram, pensando ser a emoção da despedida.
Ninguém ali nunca soube o porquê daquele choro e o que ela sempre desejou por toda a vida. Pensavam que já tinha conquistado tudo. Que aquela vida era perfeita. Invejavam toda aquela fortuna aparente.
Morreu cercada de medalhas, louros, estranhos e nenhum reconhecimento das pessoas que realmente importavam. Das pessoas de que tanto buscou na plateia por toda a vida. Morreu sem os aplausos daqueles que nunca estavam onde deveriam.
Partiu ainda rica, mas sem nenhuma fortuna.

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Fogo brando

Arte de Valentina Photos

Premiado no Prêmio Maximiano Campos de Literatura – Categoria: melhor miniconto.

Foi exatamente, coincidência ou não, quando as trevas me cegaram que pude enxergá-la. Observava-me com olhos de fogo brando, em silêncio de incêndio recém-acabado. Não pronunciou-me nenhuma faísca, ou fogo de festa em noite fria, apenas queimava-me com olhares de soslaio. Deixei-me ser marcado.
Aos poucos, todo o meu corpo ia sendo consumido, ou o que havia restado dele depois das trevas impiedosas, meu sangue borbulhava novamente, assim como quando havia caído. Não era uma ressurreição ou uma volta aos céus, eu continuava a descer, entretanto, dessa vez era diferente.
Senti medo, é certo, quem não sentiria? Era fogo nunca visto antes, era incêndio em mata seca.
Quando cheguei ao último degrau, acompanhado do medo e da dúvida, a vi recuando, a chama sem trégua, o fogo sem medo, o incêndio sem precedentes. Talvez eu fosse água.

* Conto retirado do livro Não se pode mais mar em paz hoje.
Ainda não leu o livro (Não se pode mais amar em paz hoje)? Compre já pela loja online ou pelo facebook.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

A vida é uma música sem fim

Everett Collection



Quando ouvimos a música pela primeira vez, o estranhamento sobe à superfície e a pergunta clássica ressoa pelas paredes, por que me tiraram o silêncio aconchegante? Tudo é novo, tudo é estranho, mas aos poucos nos acostumamos com o diferente, e até que, às vezes, gostamos do ritmo, das vozes, do balanço.
Não demora muito, e o pé direito começa a se chocar contra o solo em ritmo contínuo, tentamos de todas as formas acompanhar aquele som. Ficamos de pé, para tentar aproveitar da melhor forma possível. Muitas vezes caímos, é certo. A queda, aprendemos, muitas muitas vezes e somente alguns, que faz parte. A queda, ainda sim, é um passo.
Tentamos de um jeito, de outro e aos poucos podemos dizer que dançamos ao ritmo da música que toca. Ou pelo menos tentamos, o importante, em muitos casos, é continuar tentando, um dia acertamos o ritmo e pronto, a dança será plena.
Não demora muito e percebemos que dançar sozinho é menos feliz que acompanhado. Começamos a compartilhar abraços e percebemos que mais difícil que encontrar o par perfeito para a dança é acompanhar o ritmo do outro. Muitos conseguem, muitos desistem, muitos não cansam em procurar.
Os que estão de fora (não são todos) veem defeitos nos passos de quem dança, os que estão dançando (não são todos) veem defeitos naqueles que estão sentados, os que não escutam a música (sim, são todos) não conseguem ver muita coisa, além do próprio reflexo.
Mesmo quando não conseguimos ficar de pé, a música continua. Continua viva, no ritmo certo, e dançamos com os olhos, com a boca, com a mente.
Os que não escutam a música e não sentem o ritmo, não admiram a dança, não aproveitam o abraço, não abrem aquele sorriso com a síncope, sequer conseguem ficar de pé por muito tempo.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

O real sentido da vida

Foto de Bruno Mota Pinheiro.


Estava ontem a pensar sobre o real sentido da vida e o desespero se abateu sobre minhas asas. Tanto céu, tantas nuvens, tanto vento e eu aqui perdido, não no espaço, mas nos pensamentos. Sei muito bem onde estou, por isso essa minha agonia.
Todos os dias sempre buscava as migalhas do 43, todos os dias. O céu para mim estava sob o céu, abaixo daquela janela. Ela sabia que eu iria naque­le horário e observava-me com timidez, com vergo­nha, com inveja. Sim, assim como eu, ela também buscava um sentido, buscava encontrar-se em pen­samentos, pensava que a vida era um sonho.
A vida talvez seja um sonho, quem sabe? O problema é que ela tentou despertar. Do alto do prédio, observou o horizonte, como quem diz oi ou adeus, bateu asas, mas não voou.

Hoje, sinto uma dor imensurável, não sei se pela falta das migalhas de cada dia, ou por ter asas e não voar.


* Conto retirado do livro Não se pode mais mar em paz hoje, e inspirado na foto da postagem.
Ainda não leu o livro (Não se pode mais amar em paz hoje)? Compre já pela loja online.


sexta-feira, 3 de junho de 2016

A vida de ninguém

Foto de Egor Shapovalov

A vida muda na mesma velocidade que termina. A cada dia que passa, temos menos tempo para as menores coisas, esse mesmo tempo, de que muitas vezes reclamamos, é imposto por nós na tentativa de controle da vida, esse mesmo, que hoje traz um desespero imensurável por sua passagem rápida, nos traz sempre a velha lembrança de que tudo tem seu fim.
Essa passagem rápida do tempo era, desta mesma forma, uma constante para Ninguém. O tempo para ele passava rápido demais, mal dava para resolver os pormenores do dia, os problemas se acumulavam para o outro e a bola de neve não tinha mais fim.
Amigos, família e vizinhos eram apenas perda de tempo. Tempo esse que já estava escasso; trabalho, trabalho, trabalho. Seus amigos se acostumaram. Seus familiares se acostumaram. Ele se acostumou. Quando chegava do trabalho, em casa, cansado, ia logo dormir, descansar para trabalhar novamente no dia seguinte.
Durante o sono, sonhava... Sonhava com aquilo que não tinha coragem de revelar, fazia planos para a vida, de morar em uma cidadezinha pequena do interior, onde o tempo não passava, em que o trabalho seria a distração do dia e a obrigação seria apenas a de tentar viver a vida (de verdade) e admirar até onde os olhos pudessem alcançar.
Nos sonhos, Ninguém se libertava, era uma vida paralela rodeada de desejos. Quando despertava, com receio, guardava seu sonho em uma sacola e jogava em algum canto do inconsciente, esperando sonhar novamente com ele no dia seguinte. Sonhava em mudar sua vida, mas não acordava com o mesmo pensamento. Religiosamente, todos os dias a mesma coisa.
Um dia, chegou precisando muito fugir da realidade, dos problemas, das mentiras, das frustrações. Procurou desesperadamente a sacola em que havia guardado seus sonhos, sua vida paralela, sua felicidade.
Não a encontrou.
Desde então Ninguém nunca mais dormiu, Ninguém nunca mais sonhou.

terça-feira, 24 de maio de 2016

A obrigação da felicidade

Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, 1503-1507.

Iria começar esse texto dissertando sobre o mundo em que vivemos, seus defeitos e pensamentos cada vez mais ultrapassados. Poderia começar falando também sobre as dificuldades de muitos para muitas coisas, sejam básicas ou não. Fazer isso, porém, seria apenas uma redundância, dado que todos vivemos no mesmo lugar. Não é verdade?
Engraçado é que, mesmo todos vivendo, vendo e sentido os turbilhões de pormenores de cada dia, os sorrisos estampados nas fotos dizem algo diferente. “O mundo está cada vez melhor”! Talvez até esteja, isso porque a felicidade nada mais é do que um mero ponto de vista. Tudo depende de onde você olha o mundo, de que lado da cerca está.
E hoje, também, mais do que nunca, vivemos com a mesma sensação de tempos passados, talvez. A sensação de que algo está faltando. A sensação de que estamos sempre em busca do desconhecido. Talvez esse seja o motivo de continuarmos. Talvez. Mas uma coisa que é notável e afirmo sem medo de errar é que enquanto buscamos esse algo, impomos aos outros uma coisa que muitas vezes nos falta. A felicidade. Aquela mesma que não passa de um ponto de vista.
A maior preocupação da humanidade hoje não é ser feliz, e isso já engloba tudo o que você sonha para sua vida ser plena, mas sim tentar demostrar que a sua vida é feliz. Em outras palavras, moldar-se às convenções de uma sociedade falida e preconceituosa. Claro que em suas devidas proporções e sem generalizações, graças a algo que não sei explicar, todos somos distintos, mesmo sendo iguais.
Retrato do Dr. Gachet, Vincent Van Gogh- 1890
Tentamos impor ao outro que nosso jardim é mais verde, que nosso café é mais quente, que a Gioconda está sorrindo, que até o nosso misto quente é de outro mundo, tudo para explicar nossa felicidade da foto de cada dia, porque do contrário, ah do contrário! Podemos ser taxados de estranhos, depressivos, bucólicos, diferentes dos que estão na sociedade (e isso pode ser ótimo!). Diferentes daqueles que continuam felizes, apesar de toda a tristeza que varrem para debaixo do tapete.
Muitos prestam essa felicidade numa glorificação de um matrimônio que já dura 30 anos e que é sólido como uma rocha, exemplo de longevidade, mas que dentro de casa, não passa de gelatina vencida e não é exemplo nenhum de amorosidade, companheirismo. Tudo isso por causa de uma convenção. Uma dívida que nunca entendi. Felicidade é ter claro que o fim de um relacionamento não significa, necessariamente, uma tristeza, pode ser o início da felicidade. Não fomos feitos para nos tornarmos estátuas. Adornos.
Felicidade é ter claro que ninguém precisa saber de cada passo seu, porque as pernas são suas e o tropeço já vai ser uma vitória.
Felicidade é saber que recomeçar é apenas continuar uma jornada mais experiente.
Felicidade, meus caros, é saber que a tristeza é algo naturalmente normal.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Ser político no Brasil

Bola de gude - Ivan Cruz


Joãozinho desde pequeno tinha um sonho grande. Pensava alto. Queria ser político. Um dia, ainda criança, saiu de casa com toda aquela alegria que os adultos invejam e foi jogar bila (bola de gude) com seus amigos. A brincadeira consistia em acertar a bila do adversário com a sua. De cara, Joãozinho perdeu. Diferentemente dos outros, que quando perdiam, aceitavam, e tentavam melhorar para vencer em uma próxima vez, ele tinha um sonho, um grande sonho! Não demorou e foi logo falando:
– Essa não valeu! Vamos de novo. - com ar de superioridade.
O amigo revoltado com aquilo contestou:
– Mas por que não valeu?
– Porque sim.
As outras crianças, vendo aquilo, também ficaram indignadas e tentaram também opinar contra aquela arbitrariedade, mas antes de abrirem a boca foram logo interpeladas por Zezinho que foi avisando:
– Aqui na rua das bilas também fica proibido opinar.
Mesmo sem ter mais graça nenhuma, Joãozinho e Zezinho ficaram brincando sozinhos com as bilas dos demais coleguinhas. 
– Esses dois têm futuro! - gritou alguém ao longe.


segunda-feira, 18 de abril de 2016

Na verdade nem sei se merece um título

Democrart - René Magritte


Deu-se início a votação. A criança, que a tudo assistia na tevê, junto com os pais, já não entendia o que acontecia – mas não era votação? Resolveu perguntar.
– Que festa é essa, papai?
– Não é festa, filho, é uma votação muito importante para nosso futuro.
Alguém joga serpentina no ar. Outros gritam. Alguns riem, gargalham diante de um pronunciamento.
A criança, sem entender como aquilo não era uma festa, acabou saindo da sala resmungando – como aquilo pode ser uma coisa séria? ­– Voltou logo em seguida, curiosa para ver como estava aquela festa, digo aquela votação séria.
Na volta ela assiste mais um pouco, e fica mais uma vez confusa - pessoas de verde e amarelo? Depois de ver muita gente gritando, vaiando, sem respeitar a voz do outro, interpela o pai.
– Mas a votação é de jogo do Brasil, papai?
– Não filho, a votação é sobre nosso futuro.
Mais uma vez o filho sai da sala e ao voltar, cansado por não ter a atenção da família, que não saía da frente da tevê, vê algumas pessoas falando – é para meu filho, minha esposa, é para o papagaio... – Uma festa generalizada e um placar gigante na tela.
– Pai,  foi gol do brasil?
O pai, sem saber o que responder, solta baixinho:
– Sim, filho, mas foi gol contra.
A criança, dando pulos de contente por acertar que se tratava de uma festa do time do Brasil, ainda teve tempo de perguntar ao pai quem era aquele sentado ao centro da mesa.
– Ele é o técnico do Brasil, papai?

O pai não conseguiu responder por causa do choro repentino.


quinta-feira, 7 de abril de 2016

O mundo perfeito

Dream world - Jacek Yerka

Ela, que sempre dizia que tudo era perfeito, brigava de veras com quem discordava daquela opinião. – "Você não vê, o mundo é lindo, tudo é perfeito, as pessoas, minha nossa, como são boas, e olha a política...!” - Berrava à amiga inconsolada. O importante, segundo ela, era não ver o que acontecia para não pensar negativamente. “Se você não vê”, dizia ela, “não existe”. Dessa forma, para sustentar suas ideologias, adotou novos hábitos.
Começou por não mais escutar o rádio de que tanto amava. Não demorou muito e a TV da casa nem mais era ligada à tomada. Aos poucos também foi evitando sair de casa e, por fim, parou de olhar a rua pela janela.

A amiga, preocupada, ligou para ela afim de tentar solucionar aqueles problemas. Como pode!? Conversa vai, conversa vem, ela finalmente assume que o mundo realmente não é perfeito, que sim, tem algo de muito errado nisso tudo. Resolveu pintar o quarto de verde-limão. “ ­Na cor que estava era inadmissível!” - falou com ar de determinada.

terça-feira, 29 de março de 2016

A beleza vendida em garrafas

O Nascimento de Vênus (1485), Sandro Botticelli


Ela, fascinada pelas modas vendidas em garrafas, nunca ousou sair sequer para a padaria sem conferir a última. Seguia à risca. Era uma felicidade sair de casa e parecer estar dentro de uma sala de espelhos, tudo igual, todos iguais. Todo mundo vestia os mesmos modelos de roupa e usavam os mesmos óculos e celulares. Era uma felicidade só. Sentia-se incluída em algum lugar que nem mesmo ela sabia onde era.
O problema maior veio quando tudo subiu à cabeça. Literalmente. Viu ela, em uma propaganda de xampu na TV, que bela era a mulher que tinha os cabelos lisos. Correu ao salão na mesma hora para não ficar ultrapassada, feia.
Nem sequer deu tempo de chegar em casa com o cabelo novo. Pluft! Escutou no rádio uma outra propaganda – “Não fique para trás, seja bela, use cabelo encaracolado, liberte-se”! Deu meia volta, e em muitas horas, estava bela novamente.
Enquanto caminhava feliz para casa, leu no outdoor que o vermelho estava de moda. “Seja ruiva”! Resolveu voltar ao salão, mas no caminho foi bombardeada por outras tantas propagandas. “Chanel voltou com tudo”! “Anos 20 na cabeça”! “Cultive seu cabelo”! “Loiro pra todo lado”! Enlouqueceu antes de chegar.
Hoje se contenta em usar o branquinho básico da camisa de força.


quarta-feira, 23 de março de 2016

Viver esperando é agonizar no presente

Michael Cheval - Time to love


Não adiantam cálculos, anotações passadas, experiências vividas, amar é sempre andar no escuro. Não importa a idade ou quantos relacionamento já viveu. Não existe vacina para a desilusão, tampouco vitaminas para a felicidade. Cada amor é único, e isso não é poesia, é química. A química do amor.
Tudo começa com as palpitações estranhas, as mãos suadas, a voz ausente. Tudo quase sempre começa da mesma forma. Com os mesmos pensamentos distintos, que dessa vez vai ser diferente. E é! Sempre é.
Coincidência à parte, tudo, também, quase sempre acaba da mesma forma.
Triste, porém, são os que, ao terminar um relacionamento, já disparam – “foram anos perdidos”! Até podem ter sido, mas não é porque chegou ao fim que tudo foi em vão. Não é simplesmente porque terminou, que o passado não mais existe. O importante foi o que se viveu, conviveu, amou e, principalmente, o que se aprendeu. Tudo é aprendizado. Aprendizado para a vida, para a alma, porque amar, como já falei, é andar no escuro. Podemos cair no mesmo buraco infinitas vezes.

Felizes não são os que ficam juntos para sempre. Felizes são aqueles que vivem sem se preocupar com isso. Vivem o hoje, o agora. Se você passa toda uma vida preocupado com uma coisa que sequer existe, esquece de viver.

sexta-feira, 18 de março de 2016

A culpa é dos outros

O filho do homem - Magritte
Era uma vez, em um país fictício muito distante, a história inventada do homem imaginário que resolveu protestar contra a corrupção. Saiu no seu carro de mentira em direção ao protesto e no caminho lembrou-se de abastecer. Ainda com o dinheiro do voto que havia vendido, encheu o tanque.
Chegando lá, viu uma multidão, ficou feliz que finalmente o povo havia acordado para os abusos de alguns - ainda gritou de dentro do carro em coro com muitos – "punição aos corruptos!". E mais uma vez lembrou-se que precisava estacionar. Como não encontrava uma vaga perto do protesto, estacionou ali mesmo, na vaga que estava livre.  - Vaga para deficiente/idoso -.
Gritou em coro. Fez selfie. Comeu e bebeu.
Ao voltar, deparou-se com a polícia rebocando seu carro. Ficou indignado pela situação e foi logo dizendo que todos eram um bando de ladrões que apenas queriam ganhar dinheiro por meio de multas. – "Ódio desses corruptos!" - Gritou antes de ir preso por tentativa de suborno para liberar o carro.
No dia seguinte, foi solto e voltou para casa de ônibus com sua carteirinha de estudante falsa. Indignado, ainda escreveu na rede social antes de assistir a série favorita na TV a cabo pirata - "A culpa é dos 'outros'".   

sexta-feira, 11 de março de 2016

A felicidade mora logo ali

Rose meditative - Salvador Dalí


Ele, que de longe mais parecia um artista de cinema, totalmente dentro daquele quadrado do padrão de beleza, passeava no seu carro, que há pouco estampara a revista conceito de automobilismo, pela cidade. Vestia o mais fino terno que encontrou na loja de nome impronunciável e exalava o mais suave perfume da boutique que nem sequer sabia que existia. Ao lado, a mais bela jovem que jamais havia visto na vida. Tudo que podia comprar, comprou.
Uma luminária de cristal que nunca acendia, talheres de ouro que não usava, cachorros que nunca cuidava, animais silvestres por suas cores bonitas.
Um dia, depois de mais um passeio como o de sempre, percebeu que algo estava faltando. Procurou por todas as partes; dentro da piscina em forma de diamante, embaixo dos muitos carros, dentro de todas as casas que tinha. Não encontrou.
Descobriu depois, olhando para o jardim, que o jardineiro havia encontrado aquilo que tanto tirava o seu sono, e nem sequer havia gasto um só centavo. Era lindo de se ver aquele homem exalando tanta felicidade com o perfume de uma rosa. Correu de encontro à mesma rosa e tentou por várias vezes sentir o mesmo. Em vão. Com raiva, despedaçou toda a flor e gritou impropérios ao vento.
­– Para ser feliz - disse o jardineiro - não precisamos de muito. Estar disposto a isso já é um grande começo.

O silêncio veio em seguida. 


________________________


Gostou? Curta, compartilhe, Clique aqui e comente!

segunda-feira, 7 de março de 2016

As faces do amor

Passion - Claudio Souza Pinto

Se perguntarem se o amor é bom ou ruim tudo vai parecer bastante simples e até bobo, você dirá: “– ora bolas, o amor é bom. Todo amor é bom. Eu inclusive amo e estou muito feliz”. Mas será que todo mundo compartilha dessa opinião?
Antes de tentar responder se o amor (aquele de pele, de alma – não falo paixão porque esta é fumaça fraca que o vento leva) é bom ou ruim, caminharei por palavras menos rasas, por caminhos mais sombrios.
Imagine uma estrada escura, deserta, silenciosa. Imagine que você tem outra opção e, mesmo assim, escolhe essa estrada para seguir sua caminhada. Você não sabe o que vai encontrar ou se vai encontrar algo. O que vai determinar se será uma viagem boa ou ruim será a forma como se caminhará pela estrada. Você pode decidir caminhar com esmero, com um medo velado a cada passo, ou fechar os olhos em meio ao escuro e confiar no desconhecido, sem medo de tropeçar em uma pedra que seja.
Nunca sabemos quando uma estrada é boa ou ruim ou onde ela nos levará. Nunca sabemos quem talvez colocou aquela pedra que nos fez cair ou como encontramos aquela pessoa que nos ajudou a levantar. Não existe vida planejada (caminhada), isso é balela. Existe, sim, expectativa, quimera. Da mesma forma, não existe amor dos sonhos, perfeito, existe amor real, com pedras e flores. Não existe segurança em meio ao escuro. Existe confiança, caminhada, medo, frustrações e realizações. Saber todas as possibilidades torna o caminhar sempre menos escuro, mais seguro, mais leve.

Uma coisa é certa, nunca se chega a lugar nenhum parado.

quinta-feira, 3 de março de 2016

Não há nada mais democrático do que a dança

Obra de Fernando Botero.

Não importa o seu peso, a sua altura, a sua idade. Não importa se você é tímido ou de Marte. Não importa a classe social a que pertence ou sua origem étnica. Não importa se o seu time é o A ou o B. Dentro de um abraço todos somos iguais, capazes e felizes. Dentro de um abraço o importante é a música, o sentimento, o contato, o riso, o aprendizado.
Independente do tempo que você esteja envolvido com a dança, se um dia ou muitos anos, certamente já percebeu isso. E parece óbvio, lendo agora, mas, algumas vezes, esse sentimento passa despercebido. Muitas pessoas levam escondido na gaveta esse projeto de vida, dançar, por esse simples detalhe ou pensamento - de que não conseguem por determinado motivo.
Não posso garantir nada, não prevejo o futuro, não direi aqui que todos terão a mesma percepção ao provar os primeiros passos. Garanto, porém, que só saberão o quão bom é um abraço musical, a partilha do riso quando do acerto ou do erro de um passe, a gratidão mútua ao final de cada música, provando, tentando, deixando a vergonha e o preconceito dentro da mesma gaveta que ficam os projetos da vida inteira.
Tenta qualquer dia desses.


terça-feira, 1 de março de 2016

A ausência fez-se presente

Marcel Caram



Outro dia, uma cena bastante curiosa, apesar de comum, infelizmente, chamou-me a atenção. A ausência havia saído para comer. "O que há de errado, hora mais! Todos têm esse direito". O problema é que aquele silêncio estava-me cortando a espinha.
Haviam três à mesa, mas somente a ausência fazia-se presente. Era uma convidada de honra, uma amiga do peito, uma constante durante todo o encontro. Era ela, inclusive, quem falava ao garçom o que os outros dois queriam comer, beber e quando poderiam se levantar para ir ao banheiro.
Por todo o tempo que permaneceram lá, em nenhum momento se olharam nos olhos, trocaram palavras, ou riram de alguma bobagem. Por todo o tempo comeram e não saborearam, beberam e não mataram a sede, estavam juntos e ao mesmo tempo distantes.
Quando saíram do restaurante e guardaram seus respectivos celulares no bolso, pareciam Adão e Eva quando da vergonha de estarem nus. Eram dois estranhos sem ter o que dizer um para o outro. Preferiram o silêncio de um beijo seco.

A ausência foi a única quem percebeu que a pizza estava estragada.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

O retrato quase perfeito da vida cotidiana

Obra Batucada, de Carybé.
Ah, o carnaval! Quantos gritaram aos sete ventos e em muitas ladeiras que iriam aproveitar ao máximo aqueles dias antes de voltar à vida “normal”? Quantos falaram baixinho que não poderiam perder tempo? Quantos não se deram conta de que com ou sem carnaval continuamos mortais?
O carnaval, como tantos outros dias festivos no nosso calendário, é o retrato quase perfeito da nossa vida cotidiana. Vivemos esses dias sabendo a data exata que acabará, por isso, quase sempre são vividos intensamente. São nesses dias que temos mais coragem de ir além, porque perder tempo não é opção.
São nesses dias que a vida é mais alegre, porque a tristeza não tem vez. São nesses dias que acordamos pensando em fazer algo diferente do dia anterior, usar uma outra fantasia, ser o que sonhou, porque tudo dura pouco, tudo é efêmero.
São nesses dias que nos esquecemos de que todos os outros dias da nossa vida são como no carnaval, com a sutil diferença de que não sabemos quando irão acabar. Será que teremos tempo de esperar mais um ano para vivermos intensamente cada dia com o sentimento de que tudo irá acabar rapidamente?

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Somos todos poetas

Poeta Mário Gomes/Foto de Mika Holanda

Depois de uma conversa de bar com poetas-amigos, um tema bastante sugestivo à ocasião, em forma de pergunta, surgiu à mesa. Afinal, o que é ser poeta?
Muitas pessoas pensam, erroneamente, que poeta é somente aquele que escreve em versos. Escrever um texto em verso não faz, necessariamente, uma pessoa poeta. O poeta é aquele que consegue, com sua sensibilidade, colocar naqueles pequenos versos toda uma vida, toda uma emoção, todo um momento. É, também, o que consegue enxergar além do óbvio, além das palavras. É quem dá alma ao corpo vazio.
Poetas são pessoas que veem a beleza ou a feiura (em todos os sentidos) onde muitos não veem nada, ou fingem não ver.
­– Mesmo não escrevendo, posso ser poeta? – perguntou o senhor sentado à calçada.
– Sim! – respondeu um outro sentado do outro lado da rua.
O poeta olha pela mesma janela todos os dias e todos os dias se encanta com o que não viu no dia anterior. Emociona-se com a atividade infinita, posto que não somos. Desenha animais e aviões onde muitos sequer enxergam uma nuvem. Agradece, silenciosamente, o prazer de uma boa conversa.
Poeta, meu amigo, é o fotógrafo que dá movimento à uma imagem estática, o pintor que dá vida à uma tela em branco, é o ator que morre em cena e desperta a tristeza profunda da plateia.
Ser poeta, é, acima de tudo, a meta a ser alcançada para uma vida plena. 

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

A fantástica história inventada do rapaz que queria mudar de vida no ‘ano novo’

Magritte. The Therapist

Era uma vez, em uma cidade fantasiosa, a fantástica história inventada do rapaz que queria mudar de vida. De tão absurda, essa história sequer iria ao papel, mas dadas as circunstâncias, resolvi assim fazer.
Esse rapaz, de nome fácil, dizia sempre que a vida estava difícil demais da conta, que daquele jeito não poderia mais continuar.
– Vou mudar de vida! Gritava para quem quisesse ouvir.
Não estava feliz, isso era certo. Dizia ele que nada estava como deveria, que algo tinha que mudar, que seria um novo homem.
– Serei um novo homem. Gritava para quem quisesse ouvir.
Nada dava certo no trabalho, já estava acima do peso, e o relacionamento, ah! Já estava ladeira abaixo. Decidiu cambiar de vida.
Esperou todo o ano passar, dado que só se pode mudar de vida no início do ano. Dia 1 de janeiro, porém, viu que a única coisa que havia mudado era a cor do calendário. Repetiu todo o discurso.

– Em janeiro de 2017 tudo vai dar certo. Sussurrou ao vento.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...