terça-feira, 29 de março de 2016

A beleza vendida em garrafas

O Nascimento de Vênus (1485), Sandro Botticelli


Ela, fascinada pelas modas vendidas em garrafas, nunca ousou sair sequer para a padaria sem conferir a última. Seguia à risca. Era uma felicidade sair de casa e parecer estar dentro de uma sala de espelhos, tudo igual, todos iguais. Todo mundo vestia os mesmos modelos de roupa e usavam os mesmos óculos e celulares. Era uma felicidade só. Sentia-se incluída em algum lugar que nem mesmo ela sabia onde era.
O problema maior veio quando tudo subiu à cabeça. Literalmente. Viu ela, em uma propaganda de xampu na TV, que bela era a mulher que tinha os cabelos lisos. Correu ao salão na mesma hora para não ficar ultrapassada, feia.
Nem sequer deu tempo de chegar em casa com o cabelo novo. Pluft! Escutou no rádio uma outra propaganda – “Não fique para trás, seja bela, use cabelo encaracolado, liberte-se”! Deu meia volta, e em muitas horas, estava bela novamente.
Enquanto caminhava feliz para casa, leu no outdoor que o vermelho estava de moda. “Seja ruiva”! Resolveu voltar ao salão, mas no caminho foi bombardeada por outras tantas propagandas. “Chanel voltou com tudo”! “Anos 20 na cabeça”! “Cultive seu cabelo”! “Loiro pra todo lado”! Enlouqueceu antes de chegar.
Hoje se contenta em usar o branquinho básico da camisa de força.


quarta-feira, 23 de março de 2016

Viver esperando é agonizar no presente

Michael Cheval - Time to love


Não adiantam cálculos, anotações passadas, experiências vividas, amar é sempre andar no escuro. Não importa a idade ou quantos relacionamento já viveu. Não existe vacina para a desilusão, tampouco vitaminas para a felicidade. Cada amor é único, e isso não é poesia, é química. A química do amor.
Tudo começa com as palpitações estranhas, as mãos suadas, a voz ausente. Tudo quase sempre começa da mesma forma. Com os mesmos pensamentos distintos, que dessa vez vai ser diferente. E é! Sempre é.
Coincidência à parte, tudo, também, quase sempre acaba da mesma forma.
Triste, porém, são os que, ao terminar um relacionamento, já disparam – “foram anos perdidos”! Até podem ter sido, mas não é porque chegou ao fim que tudo foi em vão. Não é simplesmente porque terminou, que o passado não mais existe. O importante foi o que se viveu, conviveu, amou e, principalmente, o que se aprendeu. Tudo é aprendizado. Aprendizado para a vida, para a alma, porque amar, como já falei, é andar no escuro. Podemos cair no mesmo buraco infinitas vezes.

Felizes não são os que ficam juntos para sempre. Felizes são aqueles que vivem sem se preocupar com isso. Vivem o hoje, o agora. Se você passa toda uma vida preocupado com uma coisa que sequer existe, esquece de viver.

sexta-feira, 18 de março de 2016

A culpa é dos outros

O filho do homem - Magritte
Era uma vez, em um país fictício muito distante, a história inventada do homem imaginário que resolveu protestar contra a corrupção. Saiu no seu carro de mentira em direção ao protesto e no caminho lembrou-se de abastecer. Ainda com o dinheiro do voto que havia vendido, encheu o tanque.
Chegando lá, viu uma multidão, ficou feliz que finalmente o povo havia acordado para os abusos de alguns - ainda gritou de dentro do carro em coro com muitos – "punição aos corruptos!". E mais uma vez lembrou-se que precisava estacionar. Como não encontrava uma vaga perto do protesto, estacionou ali mesmo, na vaga que estava livre.  - Vaga para deficiente/idoso -.
Gritou em coro. Fez selfie. Comeu e bebeu.
Ao voltar, deparou-se com a polícia rebocando seu carro. Ficou indignado pela situação e foi logo dizendo que todos eram um bando de ladrões que apenas queriam ganhar dinheiro por meio de multas. – "Ódio desses corruptos!" - Gritou antes de ir preso por tentativa de suborno para liberar o carro.
No dia seguinte, foi solto e voltou para casa de ônibus com sua carteirinha de estudante falsa. Indignado, ainda escreveu na rede social antes de assistir a série favorita na TV a cabo pirata - "A culpa é dos 'outros'".   

sexta-feira, 11 de março de 2016

A felicidade mora logo ali

Rose meditative - Salvador Dalí


Ele, que de longe mais parecia um artista de cinema, totalmente dentro daquele quadrado do padrão de beleza, passeava no seu carro, que há pouco estampara a revista conceito de automobilismo, pela cidade. Vestia o mais fino terno que encontrou na loja de nome impronunciável e exalava o mais suave perfume da boutique que nem sequer sabia que existia. Ao lado, a mais bela jovem que jamais havia visto na vida. Tudo que podia comprar, comprou.
Uma luminária de cristal que nunca acendia, talheres de ouro que não usava, cachorros que nunca cuidava, animais silvestres por suas cores bonitas.
Um dia, depois de mais um passeio como o de sempre, percebeu que algo estava faltando. Procurou por todas as partes; dentro da piscina em forma de diamante, embaixo dos muitos carros, dentro de todas as casas que tinha. Não encontrou.
Descobriu depois, olhando para o jardim, que o jardineiro havia encontrado aquilo que tanto tirava o seu sono, e nem sequer havia gasto um só centavo. Era lindo de se ver aquele homem exalando tanta felicidade com o perfume de uma rosa. Correu de encontro à mesma rosa e tentou por várias vezes sentir o mesmo. Em vão. Com raiva, despedaçou toda a flor e gritou impropérios ao vento.
­– Para ser feliz - disse o jardineiro - não precisamos de muito. Estar disposto a isso já é um grande começo.

O silêncio veio em seguida. 


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segunda-feira, 7 de março de 2016

As faces do amor

Passion - Claudio Souza Pinto

Se perguntarem se o amor é bom ou ruim tudo vai parecer bastante simples e até bobo, você dirá: “– ora bolas, o amor é bom. Todo amor é bom. Eu inclusive amo e estou muito feliz”. Mas será que todo mundo compartilha dessa opinião?
Antes de tentar responder se o amor (aquele de pele, de alma – não falo paixão porque esta é fumaça fraca que o vento leva) é bom ou ruim, caminharei por palavras menos rasas, por caminhos mais sombrios.
Imagine uma estrada escura, deserta, silenciosa. Imagine que você tem outra opção e, mesmo assim, escolhe essa estrada para seguir sua caminhada. Você não sabe o que vai encontrar ou se vai encontrar algo. O que vai determinar se será uma viagem boa ou ruim será a forma como se caminhará pela estrada. Você pode decidir caminhar com esmero, com um medo velado a cada passo, ou fechar os olhos em meio ao escuro e confiar no desconhecido, sem medo de tropeçar em uma pedra que seja.
Nunca sabemos quando uma estrada é boa ou ruim ou onde ela nos levará. Nunca sabemos quem talvez colocou aquela pedra que nos fez cair ou como encontramos aquela pessoa que nos ajudou a levantar. Não existe vida planejada (caminhada), isso é balela. Existe, sim, expectativa, quimera. Da mesma forma, não existe amor dos sonhos, perfeito, existe amor real, com pedras e flores. Não existe segurança em meio ao escuro. Existe confiança, caminhada, medo, frustrações e realizações. Saber todas as possibilidades torna o caminhar sempre menos escuro, mais seguro, mais leve.

Uma coisa é certa, nunca se chega a lugar nenhum parado.

quinta-feira, 3 de março de 2016

Não há nada mais democrático do que a dança

Obra de Fernando Botero.

Não importa o seu peso, a sua altura, a sua idade. Não importa se você é tímido ou de Marte. Não importa a classe social a que pertence ou sua origem étnica. Não importa se o seu time é o A ou o B. Dentro de um abraço todos somos iguais, capazes e felizes. Dentro de um abraço o importante é a música, o sentimento, o contato, o riso, o aprendizado.
Independente do tempo que você esteja envolvido com a dança, se um dia ou muitos anos, certamente já percebeu isso. E parece óbvio, lendo agora, mas, algumas vezes, esse sentimento passa despercebido. Muitas pessoas levam escondido na gaveta esse projeto de vida, dançar, por esse simples detalhe ou pensamento - de que não conseguem por determinado motivo.
Não posso garantir nada, não prevejo o futuro, não direi aqui que todos terão a mesma percepção ao provar os primeiros passos. Garanto, porém, que só saberão o quão bom é um abraço musical, a partilha do riso quando do acerto ou do erro de um passe, a gratidão mútua ao final de cada música, provando, tentando, deixando a vergonha e o preconceito dentro da mesma gaveta que ficam os projetos da vida inteira.
Tenta qualquer dia desses.


terça-feira, 1 de março de 2016

A ausência fez-se presente

Marcel Caram



Outro dia, uma cena bastante curiosa, apesar de comum, infelizmente, chamou-me a atenção. A ausência havia saído para comer. "O que há de errado, hora mais! Todos têm esse direito". O problema é que aquele silêncio estava-me cortando a espinha.
Haviam três à mesa, mas somente a ausência fazia-se presente. Era uma convidada de honra, uma amiga do peito, uma constante durante todo o encontro. Era ela, inclusive, quem falava ao garçom o que os outros dois queriam comer, beber e quando poderiam se levantar para ir ao banheiro.
Por todo o tempo que permaneceram lá, em nenhum momento se olharam nos olhos, trocaram palavras, ou riram de alguma bobagem. Por todo o tempo comeram e não saborearam, beberam e não mataram a sede, estavam juntos e ao mesmo tempo distantes.
Quando saíram do restaurante e guardaram seus respectivos celulares no bolso, pareciam Adão e Eva quando da vergonha de estarem nus. Eram dois estranhos sem ter o que dizer um para o outro. Preferiram o silêncio de um beijo seco.

A ausência foi a única quem percebeu que a pizza estava estragada.
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