terça-feira, 1 de março de 2016

A ausência fez-se presente

Marcel Caram



Outro dia, uma cena bastante curiosa, apesar de comum, infelizmente, chamou-me a atenção. A ausência havia saído para comer. "O que há de errado, hora mais! Todos têm esse direito". O problema é que aquele silêncio estava-me cortando a espinha.
Haviam três à mesa, mas somente a ausência fazia-se presente. Era uma convidada de honra, uma amiga do peito, uma constante durante todo o encontro. Era ela, inclusive, quem falava ao garçom o que os outros dois queriam comer, beber e quando poderiam se levantar para ir ao banheiro.
Por todo o tempo que permaneceram lá, em nenhum momento se olharam nos olhos, trocaram palavras, ou riram de alguma bobagem. Por todo o tempo comeram e não saborearam, beberam e não mataram a sede, estavam juntos e ao mesmo tempo distantes.
Quando saíram do restaurante e guardaram seus respectivos celulares no bolso, pareciam Adão e Eva quando da vergonha de estarem nus. Eram dois estranhos sem ter o que dizer um para o outro. Preferiram o silêncio de um beijo seco.

A ausência foi a única quem percebeu que a pizza estava estragada.

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