quinta-feira, 28 de abril de 2016

Ser político no Brasil

Bola de gude - Ivan Cruz


Joãozinho desde pequeno tinha um sonho grande. Pensava alto. Queria ser político. Um dia, ainda criança, saiu de casa com toda aquela alegria que os adultos invejam e foi jogar bila (bola de gude) com seus amigos. A brincadeira consistia em acertar a bila do adversário com a sua. De cara, Joãozinho perdeu. Diferentemente dos outros, que quando perdiam, aceitavam, e tentavam melhorar para vencer em uma próxima vez, ele tinha um sonho, um grande sonho! Não demorou e foi logo falando:
– Essa não valeu! Vamos de novo. - com ar de superioridade.
O amigo revoltado com aquilo contestou:
– Mas por que não valeu?
– Porque sim.
As outras crianças, vendo aquilo, também ficaram indignadas e tentaram também opinar contra aquela arbitrariedade, mas antes de abrirem a boca foram logo interpeladas por Zezinho que foi avisando:
– Aqui na rua das bilas também fica proibido opinar.
Mesmo sem ter mais graça nenhuma, Joãozinho e Zezinho ficaram brincando sozinhos com as bilas dos demais coleguinhas. 
– Esses dois têm futuro! - gritou alguém ao longe.


segunda-feira, 18 de abril de 2016

Na verdade nem sei se merece um título

Democrart - René Magritte


Deu-se início a votação. A criança, que a tudo assistia na tevê, junto com os pais, já não entendia o que acontecia – mas não era votação? Resolveu perguntar.
– Que festa é essa, papai?
– Não é festa, filho, é uma votação muito importante para nosso futuro.
Alguém joga serpentina no ar. Outros gritam. Alguns riem, gargalham diante de um pronunciamento.
A criança, sem entender como aquilo não era uma festa, acabou saindo da sala resmungando – como aquilo pode ser uma coisa séria? ­– Voltou logo em seguida, curiosa para ver como estava aquela festa, digo aquela votação séria.
Na volta ela assiste mais um pouco, e fica mais uma vez confusa - pessoas de verde e amarelo? Depois de ver muita gente gritando, vaiando, sem respeitar a voz do outro, interpela o pai.
– Mas a votação é de jogo do Brasil, papai?
– Não filho, a votação é sobre nosso futuro.
Mais uma vez o filho sai da sala e ao voltar, cansado por não ter a atenção da família, que não saía da frente da tevê, vê algumas pessoas falando – é para meu filho, minha esposa, é para o papagaio... – Uma festa generalizada e um placar gigante na tela.
– Pai,  foi gol do brasil?
O pai, sem saber o que responder, solta baixinho:
– Sim, filho, mas foi gol contra.
A criança, dando pulos de contente por acertar que se tratava de uma festa do time do Brasil, ainda teve tempo de perguntar ao pai quem era aquele sentado ao centro da mesa.
– Ele é o técnico do Brasil, papai?

O pai não conseguiu responder por causa do choro repentino.


quinta-feira, 7 de abril de 2016

O mundo perfeito

Dream world - Jacek Yerka

Ela, que sempre dizia que tudo era perfeito, brigava de veras com quem discordava daquela opinião. – "Você não vê, o mundo é lindo, tudo é perfeito, as pessoas, minha nossa, como são boas, e olha a política...!” - Berrava à amiga inconsolada. O importante, segundo ela, era não ver o que acontecia para não pensar negativamente. “Se você não vê”, dizia ela, “não existe”. Dessa forma, para sustentar suas ideologias, adotou novos hábitos.
Começou por não mais escutar o rádio de que tanto amava. Não demorou muito e a TV da casa nem mais era ligada à tomada. Aos poucos também foi evitando sair de casa e, por fim, parou de olhar a rua pela janela.

A amiga, preocupada, ligou para ela afim de tentar solucionar aqueles problemas. Como pode!? Conversa vai, conversa vem, ela finalmente assume que o mundo realmente não é perfeito, que sim, tem algo de muito errado nisso tudo. Resolveu pintar o quarto de verde-limão. “ ­Na cor que estava era inadmissível!” - falou com ar de determinada.

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