sexta-feira, 3 de junho de 2016

A vida de ninguém

Foto de Egor Shapovalov

A vida muda na mesma velocidade que termina. A cada dia que passa, temos menos tempo para as menores coisas, esse mesmo tempo, de que muitas vezes reclamamos, é imposto por nós na tentativa de controle da vida, esse mesmo, que hoje traz um desespero imensurável por sua passagem rápida, nos traz sempre a velha lembrança de que tudo tem seu fim.
Essa passagem rápida do tempo era, desta mesma forma, uma constante para Ninguém. O tempo para ele passava rápido demais, mal dava para resolver os pormenores do dia, os problemas se acumulavam para o outro e a bola de neve não tinha mais fim.
Amigos, família e vizinhos eram apenas perda de tempo. Tempo esse que já estava escasso; trabalho, trabalho, trabalho. Seus amigos se acostumaram. Seus familiares se acostumaram. Ele se acostumou. Quando chegava do trabalho, em casa, cansado, ia logo dormir, descansar para trabalhar novamente no dia seguinte.
Durante o sono, sonhava... Sonhava com aquilo que não tinha coragem de revelar, fazia planos para a vida, de morar em uma cidadezinha pequena do interior, onde o tempo não passava, em que o trabalho seria a distração do dia e a obrigação seria apenas a de tentar viver a vida (de verdade) e admirar até onde os olhos pudessem alcançar.
Nos sonhos, Ninguém se libertava, era uma vida paralela rodeada de desejos. Quando despertava, com receio, guardava seu sonho em uma sacola e jogava em algum canto do inconsciente, esperando sonhar novamente com ele no dia seguinte. Sonhava em mudar sua vida, mas não acordava com o mesmo pensamento. Religiosamente, todos os dias a mesma coisa.
Um dia, chegou precisando muito fugir da realidade, dos problemas, das mentiras, das frustrações. Procurou desesperadamente a sacola em que havia guardado seus sonhos, sua vida paralela, sua felicidade.
Não a encontrou.
Desde então Ninguém nunca mais dormiu, Ninguém nunca mais sonhou.

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