quinta-feira, 6 de outubro de 2016

A doença do século

Imagens de  Francesco Romoli

Ele, que sempre repetia tudo que via e ouvia, sem nunca buscar saber a verdade, por preguiça ou desleixo, acabou um dia seguindo uma multidão com panelas e palavras de ordem. Ficou feliz, quem não ficaria, parecia final de copa do mundo e final de copa do mundo é uma festa só, não é? O problema é que ultimamente não andamos muito bem das pernas em copas do mundo. Não foi festa.

Não satisfeito, engrossou o caldo em um espetáculo de circo armado. Gritou, junto com outros, hinos de despedida. Ficou, porém, com vergonha de perguntar quem era tão querida assim para todos se despedirem dela e continuou.

Depois, ainda sob os efeitos da doença da repetição e com os olhos vidrados à TV, falava baixinho um mantra mal feito sobre alguma coisa como não falar em crise e se mexer. Foi quando acordou e revolveu se concentrar no trabalho e estudos, “nada de crise, nada de crise”.

Logo lembrou-se de que não teria mais aulas de espanhol, de que tanto precisava, mesmo morando em um continente em que todos falam essa língua (exceção do Brasil, claro) e esta sendo a segunda mais falada no mundo. E de que no país do futebol, das recém olimpíadas e tão necessitado de movimento, a educação física iria ser reserva. Mais ficou feliz por não mais ter filosofia e sociologia, afinal, pensar para quê?, repetir já estaria muito bom.

Foi ainda feliz ao trabalho, afinal de contas era concursado. Daqui não me tiram, falava sorrindo.

Foi o primeiro a ser demitido. Mas por que, se perguntava atônito, como?

Ainda pensaram em explicar, mas ele não entenderia.

Voltou pensando em usar o FGTS para comprar a casa própria...

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